Cicatriz

Você dirigia os carros enquanto eu olhava as ruas da sua cidade. Eu acreditava que as veria de novo. Agora é só outra das minhas lembranças tristes que reaparecem quando eu estou distraído. E nem é a você que eu mantive minha fidelidade, mas àquele sentimento, que era novo para mim, que eu gostaria de saborear um pouco mais. O sabor foi retirado de mim muito cedo, restaram-me apenas as perguntas, foram elas que eu tentei responder por todo esse tempo. Eu não senti essa falta, eu acreditei que um dia a doçura retornaria.
Eu vou te mostrar as camadas da minha cicatriz. Dói apenas sugerir isso, mas dói mais que ninguém as tenha visto, que ninguém tenha feito nada.
O pior conselho que ela me deu em toda a minha vida foi “Não faça nada”, eu o segui, eu lutei silenciosamente. E depois de tudo isso resta a dúvida de como a vida seria se eu não tivesse permitido que me chutassem tanto. Eu ficava parado enquanto eles pensavam em novas humilhações e ficava em silêncio enquanto eles as executavam. Eu só esperava eles terminarem. Eu seguia o conselho. Agora nem me é permitido saber o que aconteceria se eu tivesse revidado. Porque eu não ter feito nada trouxe consequências. Por que ela me deu aquele conselho? Ela não sabe como eu paguei caro por ele.
E eu passei dois anos chorando e sozinho e quieto. A lembrança deles é de uma temporada de frio. Aos poucos eu fui me aquecendo em um sonho. Se eu me tornei cético com eles que estavam presentes e se ausentaram eu prefiria acreditar em alguém que sempre esteve ausente, para ver o caminho reverso, para ver alguém ficar no fim. Então você apareceu com o seu carro e eu nunca mais esquecerei. Até hoje eu não sei porque foi você. Foi algo que eu nem sabia que existia. Eu ainda abro um sorriso apesar do que foi. Foi mais do que eu teria me permitido sonhar, foi estúpido, foi intenso, foi ridículo, foi breve, foi embora. Depois de um mês foi embora. Eu me lembro de Janeiro. Mas o que ficou ficou apenas em mim, emergindo e mergulhando sempre em mim, milhares de vezes, insuportavelmente repetindo. Eu pedi pelo frio.
Onde eu perdi minhas asas? Onde eu perdi minha voz? Eu estou chorando e escrevendo isso. Eu espero a cura como o marinheiro espera o navio no porto. Não há despedida para mim. Eu não vou desistir. Mas está doendo. Eu não quero que doa tanto. Onde eu vou guardar tudo isso? Como é que eu vou contar essa história de novo? E chorar sempre. Só assim eu consigo me aproximar de mim. Por que é que tem que ser assim? E por que existe a distância?
Trilha Sonora:
Angels, Tori Amos
Silent All These Years, Tori Amos
Spark, Tori Amos
Roteiro:
A Lua
Escrito por Raoni Duran às 18h42
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|